última carta de uma história inexistente.

por myselfoutforme

Olha o que eu fiz pra você, Bel.

Nunca foi fácil falar de você e te lembrar tão profundo como nessa carta você vai ver que eu faço. Faz tempo que comecei a escrever isso aqui, Bel.
Então não estranha se eu falar no presente e no passado ao mesmo tempo.
Eu sempre fui bagunceiro, será que disso tu lembra?

Sempre te achei a mais bonita e gentil menina entre todas aquelas outras meninas, entre todos aqueles lugares que a gente costumava passear – mas nunca fui o único. Você, com a sua docilidade, encantava a todos quando passava e eu fui só mais uma das suas vítimas. Aos poucos (ou aos muitos?), deixei que você fosse se apossando de mim como uma palheta de violão, ou como um pedaço do seu coração. Cada vez mais apaixonado, aprendi depressa a te chamar de felicidade, porque era exatamente isso que eu sentia quando te via, quando você olhava pra mim e sorria. Era tudo tão bonito, menina. Era toda a minha felicidade personificada… em você, em nós dois juntos.

Mas então tudo aquilo aconteceu, e eu não acho que preciso escrever aqui o que quero dizer quando falo sobre o “tudo” que aconteceu, porque tu sabe bem o que quero dizer, muito bem. O que tu não sabe é como eu me senti.

Tu acredita se eu disser que até hoje eu sinto reflexos disso tudo? Pois é.

Já faz tempo que não te vejo e faz tempo que eu tento lutar contra tudo o que me recorda você. E, olha, eu tentei. Eu tentei! Eu tentei canalizar todo esse amor para outros lugares, tirar você do foco, me distrair, não deixar que você tomasse conta da minha mente o tempo todo, eu tava ficando doente, eu te via em todo canto, eu te queria, era alucinante, era ruim. Sim, porque é ruim querer algo que não é possível ter. E essa foi minha primeira tentativa fracassada de fazer de você uma parte do meu passado. Tu combina mais sendo a outra metade da minha felicidade.

Também tentei dar esse amor para outras garotas, porque na minha raiva e na minha depressão, pensei que tu não merecia tudo que eu podia te dar. Pra falar a verdade, ainda não me convenci de que tu merece. Fui um canalha com elas. Eu tava multiplicando meu sofrimento por essas ruas, por esses bairros. Fui egoísta. E essa palavra combina mais contigo que comigo, por isso eu lembrava de você. Ok, não só por isso eu lembrava. É que em cada garota que eu colocava na minha cama eu via algo de você. Elas tinham o teu jeito de prender o cabelo, teu jeito de levantar a sobrancelha, teu jeito de segurar aquele cigarro que eu odiava. Eu via tudo de você em todas elas. Eu percebia que, o que me atraía, o que eu mais adorava, eram as suas características naqueles outros corpos. Confesso que me dediquei a te procurar em outras garotas por um tempo à medida que emagreci 7 quilos e deixei a barba crescer. Que merda. Uma puta de uma merda! Ninguém chegava aos teus pés, Bel. Nenhuma delas prende o cabelo como você, nem fazem aquela tua careta irônica semicerrando os olhos, não me contam piadas sem graça que me fazem sorrir, não têm tua risada alta, não fecham os olhos pra cantar mal do jeito que tu fazia quando dizia que ia fazer um show pra mim. Eu acho graça disso até hoje, sabia? Lembro das tuas palhaçadas… você tinha que estar aqui pra ver meu sorriso bobo agora.

A verdade é que ninguém nunca chegou aos teus pés, Bel… Elas não passaram batom vermelho, não tinham aquela covinha no canto do sorriso, não gemiam tão bem quanto você e nem tinham aquele cheiro excêntrico e delicioso de perfume com cigarro.

E eu, que reclamava tanto dos teus 2 maços por dia, agora fumo, sabia? Insônia, café forte e cigarro. Os três foles da minha vida. Junto com esse “coração macaco velho” no quesito dor.

Eu quero tanto esvaziar tudo aqui. “Isso é questão de força de vontade”, te ouvi dizendo agora. Tu sempre adorou ser a dona da razão.

Eu sou forte, sei que sobrevivo sem você, senão já estaria morto a essa hora. Ou talvez eu já esteja defunto por dentro, só restou essa carcaça aqui…
Eu não quero apagar tuas lembranças. Tu me obrigou a ficar sem você, agora as lembranças são tudo o que me resta. Eu me afogo nelas, às vezes. Sim. Não entendeu?

É que ainda hoje tu me visita nos meus sonhos enquanto eu durmo, porque por mais que eu tente fingir que você não significa mais nada para mim em sã consciência, o meu subconsciente rebate essa informação mostrando que eu estou absolutamente errado.

O que mais eu faço?

Meus amigos sempre me dizem pra sair de casa um pouco, esticar as pernas, que meu amor deve estar por aí, que é difícil ele bater na nossa porta assim, que a gente tem que ir à luta. Mas eu até que não acho uma má idéia se tu viesse aqui em casa gritando meu nome e quase quebrando a porta de tão forte que tu batia nela do jeito que tu fazia, porque tocar a campainha nunca foi teu forte…

Tudo bem, sem brincadeiras e ironias a essa hora.

E tu, o que me diz? Que mais eu faço?

Eu não tenho mais ânimo. Fico cansado quando preciso fingir pra todo mundo que tudo bem, tu não me afeta. Numa dessas, quando cheguei em casa, tomei um porre brabo, deitei em qualquer canto e tu me visitou através do sonho enquanto eu tava apagado. Dessa vez era para dizer que eu estava fazendo tudo errado de novo. E aí eu acordei chorando, sentindo tua falta. Querendo tanto o teu carinho, Bel… Eu me lembro de balbuciar “Me dá teu colo de novo, faz cafuné, faz. Me faz ser um cara feliz de novo. Me faz sorrir. Vem cá. Eu ando precisando de você. Me ensina o jeito certo. Vem cá. Vem cá, Bel. Vem…”
Mas você nunca veio.

Fico me perguntando como um amor pode ser tão forte, como eu ainda tenho forças para armar um exército dentro de mim contra você se no fim eu sempre acabo derrotado, chorando, derramando sangue. Eu me sinto o vilão e o mocinho dessa crônica, porque eu não tento lutar contra você, eu tento lugar contra mim, contra o meu amor por você, que me deixa tão fraco. É foda.

Tu deixou em mim feridas abertas e encharcadas de sal.
Até hoje me pergunto que raio de idéia foi essa que tu teve de me deixar.
Esquece. Agora sou eu que preciso te deixar.

Há um tempo resolvi tomar uma atitude, ter a tal da força de vontade que tantas vezes me faltou. Resolvi dar umas voltas. Espairecer, comprar uns livros, uns CDs, fazer caminhada. Nos primeiros dias eu me encontrei fazendo o mesmo caminho que a gente costumava fazer juntos. Pensei em desistir disso, mas insisti. Cada dia eu dava mais um passo e me acostumei a encontrar os pedaços do meu coração pelos lugares onde a gente costumava passar. Fiz coleção desses pedaços. Tá tudo aqui. Falta ainda remontar, pintar, colocar para funcionar. Mas eu dei o primeiro passo, Bel. Tomei coragem, estou me recuperando. Estou certo agora? Tem semanas que tu não me visita.

Olha… desculpa se em algum momento eu fui rude contigo, até mesmo nessa carta. E essa é a única desculpa que cabe aqui e agora então tira essa culpa da cabeça, Bel. Dorme tranquila agora. Segue o teu caminho, eu vou fazendo o mesmo por aqui. Te cuida amor, se alimenta direito. Por favor, se cuida! Boa sorte.

(Larissa Xavier)

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